As festas do pó colorido que estão fazendo a cabeça dos jovens Brasil afora

Por Jade Gola

Você transa o gulal? A festa indiana das cores é inspiração para festivais Holi Brasil afora, misturando pó colorido, EDM e uma nova geração de jovens dançando sob os beats!

Por Jade Augusto Gola. Fotos: Lide Multimídia/Divulgação.

UMA BRISA DE MUITAS CORES

UMA BRISA DE MUITAS CORES

Todo ano, entre fevereiro e março, os indianos juntam-se para celebrar a chegada da primavera com comidas, música, bebida, ritos e um pó colorido chamado gulal. Essa festa das cores é explicitada numa explosão gigantesca de marofas e muitas cores no ar e no rosto dos indianos. E recentemente essa festa virou pretexto para um novo segmento de eventos de música eletrônica de muito sucesso aqui no Brasil, país não menos colorido.

São as festas Holi, que excursionam por todo o país, no exterior e já são tema de algumas labels – Holi One, Play Holi e Happy Holi são as mais conhecidas. O evento em si e sua alegria são a grande atração, e não o line-up de DJs, mestres de cerimônias que explodem as cores a cada 45min ou 1h ao som de drops de EDM, house comercial, hip hop e o que mais bombar. “Sonzeira top”, “topzera”, tudo muito “top”, como demanda a vibe juvenil da nossa época.

Patrik Cornelsen, um dos sócios da Happy Holi no Paraná, traz números para dar uma dimensão do apelo dessas festas hoje. “Em 2015 a maioria das nossas festas tiveram aumento médio de público de 30%; em 2016 devemos chegar à marca de 1 milhão de participantes”. Organizadores e DJs da Happy Holi gabam-se em este ser o maior festival Holi em atuação no Brasil, com 31 festas realizadas só em 2015. As labels viajam de Fortaleza a Porto Alegre, de Teresina a Foz do Iguaçu e capitais como Rio, SP, BH e DF, além de Lisboa, Assunção… Os ingressos costumam partir de R$ 100, o que para um público em grande parte menor de idade/estudante, fica na módica casa dos R$ 50. “Nossa inspiração indiana é indireta”, explica Patrik. “A partir das cores e da beleza da festa indiana, nós criamos um produto destinado ao público teen, mas que é consumido por todas as idades”.

A festa indiana de celebração da primavera: inspiração (foto: Captain Supachat)

A festa indiana de celebração da primavera: inspiração (foto: Captain Supachat)

Henrique Lima e Joyce Oliveira, ambos com 20 anos, começaram a frequentar as festas Holi em SP este ano. Baladeiros de picos juvenis como Yacht, Blitz Haus, Hot Hot e afins, ambos celebram a “bagunça” e a energia de dançar sobre os color blasts de gulal. Henrique reclamou um pouco do tanto de “molecada” nas festas Holi (o generational gap é muito sutil ano a ano quando se está saindo da adolescência), e diz preferir a Play Holi por causa da presença de brinquedos radicais, que dá uma cara de parque eletrônico que orna bem com EDM e pó colorido. Já Joyce se encantou com a mística do gulal junto de uma efervescente paixão por sons eletrônicos dançantes.

“Música eletrônica é minha vida”, diz a moça pelo Skype, “e isso das cores eu nunca tinha visto uma festa assim. Na Índia cada cor tem um significado, e junta essas duas coisas numa bagunça de alto nível. Quero ir em todos, sempre!”. É muito comum notar nos comentários em redes sociais a moçada bradando como nunca vai esquecer aquela festa “top”, bombardeando os comentários com “que venha 2016!” ou “quando é a próxima!”, algo bem compreensível quando se coloca cidades como Divinópolis-MG no mapa dos festivais de dance music.

Patrik, o sócio da Happy Holi paranense, diz que a principal preocupação com a moçada na festa são seus celulares. “Os jovens colocam o telefone no bolso para não sujar, pulam, pulam e pulam… Perdem o celular e depois sempre acham que são roubados! Em termos de segurança, é o que mais levamos a sério”. E como é de praxe em países como os EUA, esses festivais Holi nacionais limitam a venda e consumo de bebidas alcóolicas em gradis separados e reservados. “A galera é de boa”, opina Henrique, “sempre tem quem mexa com as meninas, é muito difícil você ver alguém usando droga ou alguma coisa, apesar que sempre tem”.

Em se tratando da reunião de jovens do século XXI, outro protagonista além da música, da bagunça das cores e outras atrações são, naturalmente, as selfies: fotos mil, flashes dos color blasts e a pose perfeita sob a sujeira do gulal multicolorido. “O problema é quando você esfrega a mão no pó fica tudo uma coisa marrom, suja”, reclama Henrique. “Você tem que tentar ficar o máximo colorido possível: não ficar marrom, não tomar chuva, é muito trabalho para ficar colorido naquele holi”, completa Joyce. “Eu procuro tacar o pó na explosão ou um no outro pra sair bonitinha pintada na foto”.

Os amigos Joyce e Henrique tomam cuidado para o pó não sair marrom e sujo na selfie

Joyce e Henrique tomam cuidado para o pó não sair marrom na selfie

O gulal (chamado de ZIM na Happy Holi) é um pó fino feito à base de amido de milho (a famosa Maizena) e com corante anilina comestível. Nossos entrevistados confirmam que ele não mancha a roupa e sai fácil com lavagem. Já pululam no YouTube tutoriais de como fazer seu próprio gulal.

Então prepare-se, paizão, que talvez um dia sua garagem vai ficar toda empoeirada de cor um dia que seus filhos se reunirem pra ouvir EDM…

A MÚSICA E OS DJS DO COLOR BLAST

Adriano Nagado, o Lyopak (lê-se Liopék) vive o maior momento de sua carreira como residente e grande mestre de cerimônias da Happy Holi. Ele conversou com a gente de seu escritório de SP, num intervalo entre viagens para tocar Brasil afora, e comentou sobre o que é e o que toca de som nessa festa. “Não diria que é um festival de música eletrônica somente”, opina. “É de, cor e alegria, então é de música feliz”.

DJ há mais de 20 anos, Lyopak já tocou psy, black music, soulful e deep house, já esteve no underground (“do deep ao tech”) e, ao contrário de muitos DJs famosos, não doura a pílula ao dizer que descobriu um grande horizonte na EDM. “Depois da Happy Holi firmei meu nome no EDM e house comercial mesmo. Acho uma baita besteira isso dos caras que fazem EDM e não falam que fazem. Por que não falam?”.

LYOPAK – HAPPY HOLI MINICHART

lyopak
Alesso – Heroes (Lyopak remix)
Lyopak – Happy Ending (Original Mix)
Galantis – Runaway (Extended Mix)
Calvin Harris – How Deep is Your Love(R3hab Mix)
Tujamo – Booty Bounce (Original Mix)

Em grandes festivais EDM, muitos DJs pré-programam parte de seus sets de acordo com as pirotecnias do palco (e são criticados por isso). Lyopak conta que prepara as músicas “mais top que o pessoal goste”, e ajusta suas mixagens a partir das contagens regressivas que aparecem para os color blasts, que funcionam como uma antecipação extra para o grandioso bass drop, que nessa rave Holi é o grande momento da música e dos pós coloridos.“A maioria dos DJs já vão com uma música pré-selecionada e têm em mente o color blast. Rola o set normal e junto os anúncios, ‘faltam 10 minutos’… No countdown final você vai preparando a música para o momento da explosão, e continua o set normal”, explica Lyopak, sem entregar muito mais o ouro acerca de ajustes no pitch, crossfader e tudo mais.

Na sempre irresoluta e ingrata tarefa de definir música eletrônica, Lyopak apresenta um termo interessante que ocorre na Happy Holi: open format. “São DJs que tocam de tudo, música brasileira, reggae, trap, Tim Maia”, exemplifica o DJ, citando Jota Quest duas vezes. “São tudo músicas conhecidas que o público canta junto, na palma da mão”. Alguns nomes conhecidos das festas Holi passam por Felguk, FTampa, Adriano Pagani, André Pulse e muitos outros, sem destaque absoluto para um DJ ou outro e nem para os gringos.

Lyopak, novo rebento da nova música EDM, acha que as festas Holi vão incentivar muito a nova geração a curtir música eletrônica. “É um público muito jovem muitos em sua primeira festa, que ficam encantados com a estrutura, com o som eletrônico… Sempre temos comentários como ‘nunca foi numa festa desse jeito’. Pro cenário eletrônico é muito bom, estamos ajudando a moldar uma nova geração que vai gostar dessa música”.

Essa opinião aspiracional é compartilhada por outra estrela da Happy Holi, Alok, divulgado nas festas com seu carimbo de #44 nome da lista Top 100 da DJ Mag. “Essas crianças vão estar no mercado ativo daqui a 5 anos. Querendo ou não, é um planejamento conquistar essas crianças agora, é pensar na carreira a longo prazo. As pessoas às vezes criticam que só dá pirralho nessas festas, mas eu penso que é educar essa nova geração – daqui a 5 anos quem critica pode voltar a falar comigo, e eu só vou ter a agradecer aos pirralhos”.

As discussões sobre o que toca de bom ou de ruim nas festas Holi podem ser bem vislumbradas em comentários de Facebook e afins, e foi de lá que puxamos conversa com Rafael Zanchettin, 20 anos, participante de sua primeira Happy Holi em Curitiba na semana da confecção dessa reportagem. Rafael já foi em raves mais “under”, está ligado nas nuances de distinção cultural da dance music e aprovou o som e a vibe da rave do pó colorido. “Os DJs mandavam uns sons que é o da atualidade, que não é o mesmo de uma rave”, tucana o rapaz, aceitando numa boa o som comercial. “Eu fui só pensando no som, só que quando cheguei e aquela loucura de começar a jogar o tal pó foi uma animação a mais. A vibe do evento é muito boa, eu viraria sim um frequentador habitual… As cores dão um up pro festival, entende?”

Como cantou James Murphy (LCD Soundsystem), grande poeta de um underground distante dessas novas raves Holi, a música é só uma parte -“há luzes e sons e histórias”. E agora há também o bendito pó colorido.

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