Clipe Aphex Twin Imagem: Reprodução

Como um menino autista dirigiu o 2º clipe mais popular de Aphex Twin

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Em 2016, o jovem irlandês Ryan Wyer, de apenas 12 anos, foi convidado para criar o vídeo para CIRKLON3

Quem tem o privilégio de conviver com uma criança autista (caso deste que vos escreve) sabe que essa molecada pode desenvolver alguns superpoderes espetaculares. Uma sensibilidade oculta para nós, que deflora em projetos artísticos otimizados pelo tão invejado hiperfoco que eu não me canso de observar (sim, pai coruja). Para nós, é fácil compreender por que o gênio da música eletrônica experimental Aphex Twin, em 2016, escolheu um garoto prodígio de 12 anos para roteirizar e dirigir seu videoclipe da música CIRKLON3, dando-lhe total carta branca na criação artística.

Enquanto muitos, na infância, ouviam Patati Patatá e Xuxa, Ryan Wyer gostava de gente do naipe de My Bloody Valantine e o próprio Aphex. Esse, um dos seus superpoderes. Com o apoio dos pais, criou um canal no YouTube onde publicava vídeos caseiros, tão experimentais e malucos quanto os de seus ídolos. Colheu o que plantou, e rapidamente. Uma de suas criações, com a música minipops 67 [120.2][source field mix] como trilha sonora — indisponível na plataforma hoje em dia, infelizmente — viralizou a ponto de chegar ao próprio Aphex Twin e aos caras da Warp Records.

Em 2016, Richard David James, o Aphex Twin, não lançava um videoclipe há 17 anos. Tinha acabado de botar nas lojas o EP Cheetah, e a gravadora ainda não sabia nem mesmo qual faixa do disco utilizar para promover em audiovisual, quando resolveram ligar na casa do pequeno irlandês, diagnosticado com autismo naquela mesma época.

“Meus pais ficaram absolutamente excitados quando a Warp ligou na nossa casa. Quase surtaram”, contou Ryan, anos depois. James queria que ele roteirizasse, gravasse e dirigisse um videoclipe para uma música de seu EP. E o garoto ainda deveria escolher a faixa. Liberdade artística total e irrestrita.

Ryan Wyer no clipe de Aphex Twin

Ryan Wyer no clipe de “CIRKLON3”. Imagem: Reprodução

Com uma ideia na cabeça, câmera na mão e muita cara de pau, Wyer chamou os amiguinhos da rua e botou todo mundo para dançar em frente à sua casa, usando camisetas do produtor musical e máscaras cedidas pela gravadora. Encheu de efeitos malucos, bem no estilão low profile, e entregou um videoclipe que bateu na lata dos fãs unindo três elementos: a volta do inglês às plataformas audiovisuais, o experimentalismo e coragem estética do projeto e a história por trás da sua concepção.

CIRKLON3 é o segundo videoclipe oficial mais assistido de Aphex Twin no YouTube, com 3,3 milhões de visualizações, perdendo apenas para Come to Daddy (Director’s Cut), com mais de oito milhões.

Ryan Wyer ainda mantém seu canal na plataforma, onde publica seus remixes (hoje, se dedica à produção musical) e vídeos de shows que frequenta na Irlanda. Mantém-se sempre na dele e segue nas experimentações malucas que herdou do cara que lhe deu uma chance criativa ímpar. Em 2017, após o sucesso do vídeo, finalmente encontrou pessoalmente Richard, após sua apresentação em Dublin, a quem descreveu como “a pessoa mais doce e delicada com quem alguém pode conversar”.

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Há um ano, o rapaz abriu uma discussão no fórum online Reddit com o título “Eu sou Ryan Wyer, que vocês devem conhecer como o gordinho de 12 anos que dirigiu o videoclipe de promoção do EP Cheetah em 2016. Fiquem à vontade para perguntarem o que quiserem”. Embora a checagem da identidade real do autor seja impossível, já que os usuários do fórum podem se inscrever anonimamente, a acurácia das respostas permite supor que estejamos falando com o verdadeiro diretor e produtor musical.

Caro leitor, lembra-se da alta sensibilidade artística dos autistas de que falei começo do texto? Aqui vai uma prova: em uma das respostas, ele lista seus artistas prediletos na música — Aphex Twin, Pink Floyd, Radiohead, Kraftwerk, Björk, Underworld, Joy Division, Yello, Boards of Canada, Autechre, The Chemical Brothers, Flying Lotus, Pulp, Lou Reed, Portishead, The Bug, David Bowie, The Prodigy, Nine Inch Nails, The Velvet Underground, New Order, The Beatles, Daft Punk, Slowdive, Squarepusher e My Bloody Valentine.

Parabéns aos envolvidos. O garoto é o máximo!

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.