
“Eu vivi Belchior”: Ana Cañas reflete sobre jornada no novo álbum “Vida Real”
Produzido por Dudu Marotte e Fernando Furtado, e com a participação especial de Ney Matogrosso, 6º disco da artista chegou nesta sexta
“O real é isso aí, Jota. É você com a mão na testa, perdido, perguntando para mim como se eu fosse pudesse te dar uma resposta (risos). Não tem resposta. Eu queria ter filmado essa cena, de um jornalista carcomido pelas questões existenciais. Acho que o real é o sentimento”, me responde Ana Cañas ao final de uma divertidíssima entrevista, quando a provoco sobre o nome de seu novo álbum, Vida Real (o que é real, afinal, em um mundo tão louco?), nas plataformas a partir deste dia 04 de abril.
A cantora e compositora conversa com o bom humor de quem estava prestes a abrir o show de um de seus grandes ídolos na música, Alanis Morissette, em Curitiba. Com a leveza de quem, aos 44 anos, encontrou em um disco recheado de canções folk um panorama do que foi sua vida pessoal e artística até então. Vida Real tem belas pérolas, foi produzido com esmero por Dudu Marotte e Fernando Furtado, o Clive Davis pessoal de Cañas, segundo me conta, e vale a sua audição. Se ainda não está convencido, saiba que Ney Matogrosso faz uma ponta de luxo.
Compor, lançar, cantar e compor de novo faz parte da vida de quem percorre a estrada da música. Ana parece fazer do caminho uma viagem descendo para a praia com vento suave na cara. Vento forte o bastante para expulsar os maus esqueletos do carro, largando-os pelo caminho. Acompanhando-a na road trip em formato de entrevista, a artista vai me falando do processo de composição da nova obra, boas parcerias, a importância de Belchior em sua vida (tem tecos dele no disco, sim, em inspiração) e mais um tanto de bons assuntos. Convidamo-lo a nos acompanhar nesse rolê sobre a Vida Real.
Jota Wagner: Parabéns pelo novo álbum! Cicatriz é uma senhora de uma música…
Ana Cañas: Eu tenho uma história para te contar sobre Cicatriz.
Então conta!
Tá. Já vou mandar na tora. Quando escrevi essa música eu estava nos “finalmentes” do disco. Não tinha espaço para ela. Mas o Thiago Castanho, guitarrista e violonista do Charlie Brown Jr., me falou: “eu queria que você viesse aqui na minha casa, em Santos, vou mandar um motorista te pegar”. Sou superfã do Charlie Brown, adoro o Chorão. Achei que o Thiago ia me convidar para cantar em um disco que sabia que ele estava fazendo mas, quando cheguei lá ele falou: “vamos fazer uma música?”. Por sorte, eu tinha levado uma pasta com letras que eram sobras do disco. E mostrei essa música para ele, Cicatriz.

Então o Thiago me disse: “Ana, eu não sei que disco você está fazendo e acho que vai ser ótimo. Mas essa música não pode não estar nele”. Voltei pra casa, liguei para o Fernando Furtado de madrugada e contei a história: “Então é o seguinte, eu vou gravar Cicatriz e foda-se”.
São sete anos desde seu último disco de inéditas… Foi tudo escrito ao longo do tempo ou recentemente você falou: “tá na hora de fazer um novo disco”?
Eu tenho músicas que foram escritas desde 2013. Eu já estava amealhando canções para tentar responder quem sou. Mas aí caiu um meteoro na sala da minha casa, chamado Belchior. Então eu freei tudo para viver o Belchior. Eu não cantei o cara, eu o vivi, e agora carrego ele para sempre dentro do meu coração. E tem canções que foram feitas durante esse processo. Foram 14 meses gravando esse disco. Outras, são um arco dramático ao logo da minha vida: canções feitas para ex-namorados… Porque o namorado passa, mas a música fica, né, meu querido?

Foto: Fernando Furtado/Divulgação
Vida Real é bem folk. Tem também um efeito Belchior ali… A própria faixa-título é meio Dylan, meio Zé Ramalho…
Se você pensar que eu gravei Bob Dylan no meu primeiro disco, em 2007… Uma versão de Rainy Day Woman, com Alexandre Fontanetti no violão. Dylan é uma coisa que não sai da sua mente, por mais que você queira expulsá-lo. E sabe por quê? São vários Dylans. Ele é tão desgraçado, no bom sentido, que tem um Dylan para cada fase da sua vida. Agora estou na fase Rolling Thunder Review.
Tem uma frase lá, de Blowing in the Wind, que faz muito sentido para mim agora: “quantos mares uma gaivota deve sobrevoar antes que ela possa pousar na areia?”. É por aí, meu amigo. Ele libertou as mentes do mundo. Trouxe seu Jack Kerouac, seu Allan Ginsberg, para todos nós.

E trouxe liberdade também ao artista, nessa coisa de ter várias fases…
Total.
Falando em ícones, temos Ney Matogrosso no disco — um cara que todos nós daríamos tudo para levar para jantar em casa. Ele é mesmo assim tão legal quanto parece?
Cara, ele é muito mais legal do que parece ser!
Sua esnobe (risos)…
Desculpa, mas é isso. E quando você começa a falar de sexo com ele… aí é que explode, irmão. O Ney é isso, né? Ele entrou na minha vida através do Cazuza, nosso cupido. Eu fui gravar o Som Brasil na Globo, e estava passando por um momento dificílimo. Meu pai havia falecido e eu estava dando uma exagerada no álcool. O Ney foi o cara que me chamou de canto e falou: “Ana, isso aí tem um preço alto. Eu vejo para você uma carreira muito linda, você é talentosíssima. Você podia parar de beber”.
Cara, eu passei uns três anos assim. Eu internei meus pais nove vezes por alcoolismo. Ele não conseguiu vencer o vício. E o Ney foi o cara que pegou minha mão e falou algo que ninguém teve coragem de me falar. Foi assim que ele entrou na minha vida e nunca mais saiu. Eu tento fingir normalidade quando estou com ele, mas não consigo (risos). E imagina agora, vendo ele gravar uma música que eu escrevi? Já posso morrer.

Ana Cañas. Foto: Fernando Furtado/Divulgação
Vida Real é uma disco leve, gostoso de ouvir. Qual a função de um disco desses em um mundo tão barra pesada como o de agora?
Ah cara, é isso aí mesmo. Trazer leveza, conforto, alegria sem medo. 44 anos te dão muitas coisas gloriosas, sabia? Estou em paz comigo, com o momento em que eu vivi com esse Belchior, que rasgou o Brasil em 180 shows. Me deu a oportunidade de dizer: “agora eu quero trazer alegria para a vida das pessoas”. Tem também suas canções reflexivas, mas eu queria mesmo que ele fosse gostoso de ouvir. Estou muito feliz com ele, de verdade. E uma coisa tem de ser dita: Dudu Marotte e Fernando Furtado têm muita importância nessa construção.
Pois é, o disco tem uma mixagem muito espacial e limpa, sua voz arenosa…
O Marcelinho Ferraz que mixou. Mas tudo foi uma sonoridade construída pelo Dudu. Não falei nada e ele sacou, cuidou da mix com o Marcelinho. Quando eu ouvi, só falei: “gente, que lindo, é isso”. Um disco que se chama Vida Real tinha que trazer esse grão da voz, essas camadas. Trabalhei com um time muito bom, e eles, junto com o Fernando Furtado, têm total mérito nessa construção.
Para compor, você pensa em como ele vai soar no palco?
Eu tenho fases. Durante a gestação do disco, como te falei, havia muitas canções que estavam guardadas. Mas estaria mentindo se eu dissesse que não penso no público na hora de compor. Sou apaixonada por refrões. O Dylan, por exemplo, é um cara que não tem muito refrão. Nem mesmo o Belchior. Mas eu tenho uma infância de Alanis Morissette. Sou fã de Skank, Lulu Santos, Rita Lee com Roberto de Carvalho e com Mutantes. A hora do refrão é a hora que bate, de ter todo mundo cantando comigo.
E eu também vou te falar de uma lição belchiorana que é: fale de você. Fale do seu íntimo, daquilo que você viveu. Porque aí a identificação vem de verdade, como aquele frase do Oscar Wilde: “a beleza é a verdade, e a verdade é a beleza”.
