A síndrome da falta de memória

Por Claudia Assef

Jeff Mills tocando I Feel Love, de Donna Summer, no DVJ (novidade então) em imagem clicada pelo fotógrafo Fábio Mergulhão

Um dos clichês mais desinteressantes sobre o Brasil diz respeito à nossa notória falta de memória. Sempre tive vergonha dessa má fama, mas vira e mexe você é confrontado com provas de que isso é usado contra nós mesmos. Ao anunciar que que trará o festival espanhol Sónar ao Brasil (em 2012), a Dream Factory, produtora do Rock In Rio,  fez questão de “esquecer” o fato de que a marca já esteve no País, num evento que foi divisor de águas, em 2004.

O Sónar é hoje um dos festivais de música e arte eletrônica mais importantes do mundo, por causa de sua diversidade (reúne cinema, arte audiovisual, performance. Criado em 1994, o festival virou uma marca de som e arte de vanguarda, levando todos os anos para Barcelona milhares de pessoas interessadas no mix de novidades com o tradicional resgate de velharias que é promovido em seus palcos. Desde 2002, o Sónar mirou para o mundo e começou a ter edições (de diferentes dimensões) em vários países.

Sei bem da importante dimensão que o festival teve aqui no Brasil porque trabalhei nos bastidores. Em 2004, o Sonarsound SP trouxe pra São Paulo gente que estava em plena ascensão em suas carreiras, nomes que estavam pegando fogo internacionalmente, tais como o chileno Ricardo Villalobos, o americano Matthew Dear, o hip hop do Prefuse 73, a dupla canadense Junior Boys, o inglês Four Tet, a banda LCD Soundsystem (àquela altura no início da carreira), o DJ performático Kid Koala, a banda Liars, o trio de electrorock Chicks on Speed, o canadense Akufen, a incarnação da Janis Joplin da música experimental, Kevin Blechdom, e o casal Matthew Herbet e Dani Siciliano (que fez um show de abertura com orquestra sinfônica), além de artistas já super consagrados no mundo das pistas de dança, como os franceses François K e Laurent Garnier e o americano Jeff Mills, um dos pais do techno, só pra ficar entre os gringos. Dos brasileiros, de Nego Moçambique a Mau Mau, passando por Renato Cohen, Dolores, Nuts, Zegon, Tetine, Anderson Noise e Marlboro, o festival reuniu DJs e produtores de vários estilos que ajudaram a montar um line-up poucas vezes visto neste país.

Em duas noites e uma parte diurna que levou arte multimídia, cinema e shows mais intimistas ao Instituto Tomie Ohtake durante três dias, o Sonarsound SP reuniu quase 30 mil pessoas e foi considerado pela produtora catalã Advanced Music o maior e melhor evento organizado pela marca Sónar fora da Espanha.

Semanas atrás recebi o tal comunicado da Dream Factory anunciando o Sónar 2012 no Brasil como um evento grandioso. O festival espera atrair “mais de 50 mil pessoas nos três dias de evento”. Detalhes sobre data e local não foram anunciados.
Mais adiante no release, o texto fala que “no Brasil, o encontro teve uma passagem tímida em 2004”. Só isso. Não cita um artista sequer. Não sei quem escreveu, não é da minha conta.

Mas ate que ponto pode-se menosprezar o impacto deste evento, que foi um divisor de águas na história recente dos festivais de música no Brasil? Por isso mesmo o retorno do Sónar ao país é tão importante e esperado, há anos. Só que em vez de usar a experiência positiva do passado para enriquecer a do futuro – como a história nos ensina que é legal fazer -, aqui o caminho é o inverso.

Entendo que no mundo coorporativo o que vale são planilhas, rentabilidade e fotos bonitas para colocar no site. Felizmente na vida real não é assim que funciona.

Fica aqui o meu protesto contra aqueles que pretendem ignorar nossa memória em prol de oportunidades de novos negócios neste país continente em tempos de globalização 2.0.

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ARNALDO BAPTISTA REMIXADO

O selo do clube D-Edge, de São Paulo, acaba de lançar digitalmente uma coletânea de remixes do eterno ex-Mutante Arnaldo Baptista. Treze artistas, entre eles as duplas Tetine, Monsters at Work e Glocal, os DJs Magal e Rotciv, e os produtores Renato Patriaca, Pedro Zopelar e Laércio foram convidados para fazer suas versões da música “To Burn or Not To Burn”, que foi originalmente produzida por John Ulhoa, do Pato Fu.

As faixas podem ser ouvidas no Soundcloud no clube, neste endereço aqui: http://soundcloud.com/dedgerecords/. Entre as mais legais estão as versões do Glocal e do Tetine, na minha humilde opinião.

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O POPERÔ DE RENATO COHEN

Novidades do DJ e produtor paulistano Renato Cohen, que ficou famoso no mundo todo ao lançar o hit de techno “Pontapé”, em 2002. De uns tempos para cá, Cohen tem trazido para seus sets sonoridades da disco music, gênero que o tem movido em escavações cada vez mais profundas em busca de raridades e jóias raras do acervo da dance music.

Este affair com sons do passado o levou a criar uma nova festa, a Poperô, que acontece mensalmente no Bar do Netão, na rua Augusta, em São Paulo. A Poperô vai para a sua terceira edição em 2 de julho, ao lado do parceiro Benjamin Ferreira, talentoso DJ de Belém radicado em São Paulo.

Além de festa, Poperô é o nome do novo selo de dance music de Cohen, que pretende lançar música de pista sem rótulos específicos. Se depender da curadoria de Cohen, certamente vem coisa por aí. Fica de olho.

Texto originalmente publicado no Caderno 2 + Música (Estado de S. Paulo) de 25 de junho de 2011

Claudia Assef

http://www.musicnonstop.com.br

Autora do único livro escrito no Brasil sobre a história do DJ e da cena eletrônica nacional, a jornalista e DJ Claudia Assef tomou contato com a música de pista ainda criança, por influência dos pais, um casal festeiro que não perdia noitadas nas discotecas que fervilhavam na São Paulo dos anos 70.

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