WME 2026 Claudia Assef e Monique Dardenne, fundadoras do WME. Foto:

Como 2 mulheres ajudaram a reprogramar a indústria da música brasileira

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Claudia Assef e Monique Dardenne refletem sobre as conquistas e lutas de dez anos de WME

A entrevista com Monique Dardenne e Claudia Assef, criadoras do ecossistema Women’s Music Event (WME), termina em lágrimas. A ideia do longo papo marcado para uma manhã fria de feriado era fazer uma retrospectiva dos grandes feitos da dupla às vésperas da edição comemorativa de dez anos da conferência, um encontro dedicado à formação, discussão e claro, celebração das mulheres no mercado da música.

No clima de sessão de terapia, a conversa começa com atenção da dupla dinâmica às dificuldades em se tocar um projeto anual desse tamanho, às mudanças de humor do mercado, à situação assustadora das mulheres em geral no último ano e à necessidade em não deixar a peteca cair. Mas foi só o começo.

Ao longo da conversa, Assef e Dardenne foram elaborando suas histórias de vida, que há uma década se fundiu com a do WME, compreendendo a importância das mudanças que ajudaram a provocar. Um misto de orgulho e surpresa ante à própria perseverança, ao respeito que conquistaram e às mudanças à sua volta. É claro que ainda há muito por fazer. Mas é também claro que muito foi feito.

A edição de dez anos do Women’s Music Event acontece entre os dias 18 e 21 de junho, novamente na lindíssima Biblioteca Mario de Andrade (com direito à ocupação da praça com apresentações musicais). O clima é de retrospectiva, mas sem deixar de olhar para o futuro. Confira a programação completa e informações sobre ingressos aqui.

WME 2026

Assef e Dardenne em 2016. Foto: Divulgação

Jota Wagner: Este é um bom momento para olhar para trás e entender tudo o que foi realizado. O que vocês enxergam desses dez anos de WME?

Claudia Assef: A primeira coisa é que nunca vai ser fácil mexer em uma estrutura tão densa quanto o patriarcado. Construímos muita coisa, não tenho dúvida. Vejo isso quando não temos que explicar para as artistas com quem conversamos o que é o WME. Todo mundo no meio musical já nos conhece e respeita. E isso é uma das coisas mais díficeis de se conquistar nesse meio.

Mas apesar de termos esse respaldo e o respeito do nosso nicho, diminuir a desigualdade não é um negócio simples. Às vezes sinto que não vou viver para ver isso. Um dia poderemos mudar o nome de Women’s Music Event para “People’s Music Event”, mas vai demorar muito ainda.

Muitas artistas com quem conversei falam de se manter na luta “até não ser mais necessário”. O quão longe estamos disso?

Claudia: Acho que talvez minhas filhas, velhinhas, vejam isso. Ainda está muito longe.

E o que mudou nesse mercado para artistas, produtoras, técnicas de som…?

Claudia: Muita coisa mudou. Primeiramente, o nosso sentimento. Colocamos esse assunto na mesa. Era um elefante branco; quase um assunto velado, de banheiro feminino. Por exemplo, o assédio nos bastidores com pessoas que sempre trabalharam na música: agentes, empresárias, bookers.

Antes, caras faziam line-ups com cem artistas, todos homens, e não havia nenhum questionamento. Então, começamos a questionar. Foi um momento em que mulheres começaram a ser chamadas de histéricas, malucas. Era brutal, e as artistas que reclamaram ficaram marcadas, fragilizadas.

WME

Preta Gil no WME Awards 2020. Foto: Melissa Haidar

Quando trouxemos esse assunto oficialmente na entidade WME, passamos um ano conversando sobre como isso chegaria no mercado por causa dessas interações anteriores. Não dava para entrar com o pé no peito. Até porque não íamos conseguir apoio das agências de publicidade, e muito menos os cheques que a gente precisava. Antes, era tudo árido.

Monique Dardenne: Nesses dez anos, a coisa mudou também como um movimento mundial. Ouvíamos produtores falando que mulheres artistas não vendiam ingresso. Hoje, entendem que os melhores vendedores de ingresso são mulheres. São headliners em festival no mundo inteiro. Muitas estão fazendo a própria gestão de suas carreiras. Se libertaram de empresários, grandes gravadoras e abriram seus próprios escritórios.

Dentro do estúdio, também acredito que muitas mulheres evoluíram com essa segurança de levar suas músicas para o lugar onde se sentem à vontade. Também vejo uma valorização maior da mulher como compositora. São dez anos de mulheres puxando outras mulheres.

Luísa Sonza e Marina Sena no WME Awards 2021. Foto: Divulgação

Antes, você via uma artista mulher rodeada por homens. Hoje, principalmente em artistas mais novas e LGBTQIAP+, as equipes que as acompanham são mais diversas.

Dentro das gravadoras, você vê um número crescente de executivas. É muito visível o quanto andamos. Claro que ainda é muito desproporcional, mas houve muitos avanços. Na equipe técnica, temos poucas profissionais ainda, e todas extremamente requisitadas. As novas gerações são a continuação da mudança.

Em 2023, vocês quebraram vários paradigmas fazendo a curadoria do festival Rock The Mountain, só com um mulheres, e um sucesso total de venda de ingressos…

Monique: Eu estava em Brasília, no Festival CoMA, e entre um monte de produtores estava o Rodrigo [Tavares], da Mangolab. Me lembro de que na roda de discussão toda só havia duas mulheres, e uns dez homens, do cenário de festivais. Começamos a falar de igualdade e eu tive de acessar um artigo na internet para mostrar a eles que algo estava errado. Eu e o Rodrigo não nos conhecíamos, e foi ele quem nos conectou ao Cadinho, do Rock The Mountain.

Quando eu e a Claudia nos reunimos com o Rock The Mountain, eles já tinham essa ideia de celebrar os dez anos de festival com o line-up feminino, mas sem a certeza de que iria vender bem. Fui muito provocativa naquele momento: “se você não acredita, então a gente para por aqui”. Mas ele acabou concordando. Desenhamos uma estratégia, fizemos os release para validar a história de um line-up 100% feminino.

Conferência do WME em 2023. Foto: Divulgação

E foi sold out…

Monique: Para hackear o sistema, para a indústria cultural, foi incrível. Um case em que se fala “galera, olha a força das mulheres!”. É até um argumento para criarmos nosso próprio festival no futuro. A única coisa que falta no mercado é um festival 100% feminino, e o WME tem propriedade para fazer isso.

Eu tenho a impressão de que outras regiões brasileiras estão agindo mais rápido na questão da igualdade do que o Sudeste…

Monique: Dá pra dizer que a cena independente abraçou mais, com certeza, porque elas têm mais poder ali. A cena independente é mais consciente. Começamos a ser convidadas para eventos no Brasil inteiro, em festivais que estavam fazendo com que programadoras mulheres tivessem mais visibilidade. Antes, uma delegação tinha 20 caras e duas mulheres. De repente, começamos a ver isso mudar.

Claudia: Nós fomos um botão de ignição de algo que já estava ali, latente. Tudo começou muito planejado. Ficamos um ano incubando e planejando minuciosamente como seria nosso ataque. Nossa comunicação já era bem foda. Os folders das conferências tradicionais eram burocráticos, com uma terminologia chata. Eu botei a mão e falei: “nós vamos ter de fazer isso aqui ser pop”. Foi uma minúcia que chamou a atenção do mercado. Sem desmerecer, claro, quem já estava fazendo isso há muito mais tempo, como a Ana Garcia (Coquetel Molotov), a Ana Morena (Festival do Sol) e tantas outras.

Nós chegamos com a plataforma. Com a a ideia de lançar um site informativo, trazendo a mulher para o front, dona de sua carreira. A mulher produtora musical começou a ser retratada como uma produtora musical, e não como a namorada de um. Lançamos o banco de profissionais, a conferência e, depois, a premiação. Tomamos uma “bronca” da Fátima Pissarra [fundadora da agência Mynd], que olhou para o ecossistema e falou, “tá faltando um prêmio”. Ela já havia sido CEO da Vevo, já tinha revolucionado a Nokia. Não tínhamos nem um ano de vida e ela falou: “eu quero vocês”.

Isso validou muito um sentimento de mulheres que estavam em diferentes capitais e que se juntaram. Foi realmente um espírito do tempo, que a gente capturou e fez bem-feito, bonito, com um discurso afinado, também pra não assustar os boys, e fomos pra rua.

E como o WME se coloca em relação à América do Sul? Há propostas semelhantes nos países vizinhos?

Claudia: Temos uma aproximação com a Argentina, um dos países mais avançados na questão de equidade e de luta pelos direitos da mulher. Veja as Mães de Maio, por exemplo. Elas sempre foram muito unidas para sair às ruas. Argentina e Uruguai são vanguardistas nesse aspecto. Na Argentina, há uma lei que exige que pelo menos 30% dos eventos seja composto por mulheres contratadas.

A Argentina está na frente da gente, puxando a fila. Alguns movimentos de lá já entraram em contato com a gente, mas por questões financeiras, nunca conseguimos convidá-las como se deve.

Monique Dardenne, Fátima Pissarra e Claudia Assef no WME Awards 2022. Foto: Mariana Smania/Divulgação

Mas existem prêmios dedicados à música feminina por lá?

Monique: Eu acredito que não existe no mundo todo uma plataforma que tenha todos esses braços que nós temos. Uma plataforma voltada ao protagonismo da mulher, uma conferência grande e um prêmio com visibilidade nacional, um banco de profissionais e um selo que chancela iniciativas da música, dentro de um país continental. Que a gente saiba, não existe.

Qual é a grande diretriz, a grande bandeira da conferência de 2026?

Claudia: Agora é a hora de celebrar os dez anos e olhar para trás, fazer uma retrospectiva e lembrar de tudo o que já fizemos. Começamos o projeto penando em uma mulher muito invencível, uma Vênus. Mas resolvemos não dar tanta luz para esse conceito porque isso foi vomitado para nós, principalmente por conta do ano horroroso para as mulheres em 2025, com crimes, feminicídios. Um cenário desesperador. A reação natural é criar esse conceito de Vênus, a vencedora que, apesar de maltratada, diminuída, resiste e vence.

Na de 2026, vamos fazer uma grande retrospectiva, inclusive cenográficamente. Vamos trazer nossa iconografia, falar da comunicação, de como foi escrita ao longo desses dez anos. Uma comunicação premiada internacionalmente.

Monique: É a hora de contar nossa história. São dez anos contando histórias de mulheres cujos legados não foram devidamente celebrados. Então, é o momento de mostrar para o mercado o que atingimos e a importância do WME para a música. Claro que não é tudo por culpa do WME, mas ele puxa muitas alavancas.

Claudia: Essa mudança de chave também diz respeito às mulheres do mundo corporativo, para estarem com a gente e entenderem que precisamos estar unidas, puxando as outras. Estamos sentindo esse movimento. Quem está à frente de grandes gravadoras hoje. Se não há uma mulher como vice-presidente, pelo menos há diretoras de bastante importância. Isso não se via há dez anos, nem no nível de gerência. A cadeia está mudando.

No momento de olhar para trás, qual o recorte que as faz pensar que valeu a pena?

Monique: O momento que vale a pena para mim é lembrar desse crescimento, das lembranças com a Claudia, do quanto cresci como mulher. O quanto desconstruí machismos dentro de mim. Um crescimento de vida, de amadurecimento, de olhar mulheres com mais empatia.

Claudia: Já passamos por situações que são impublicáveis, e conseguimos vencer juntas. Não é só a conferência ou um prêmio. Batalhamos por isso todos os dias, enchendo o saco de geral, atrás de apoios. Temos os nossos outros trabalhos, que também nos consomem, a família… São momentos em que, se a Monique não tivesse dado a mão para mim, eu não teria como sair dos quartinhos em que vou me esconder por conta de situações que acontecem. Em outros, eu também a puxei para fora. São dez anos, muitas cobranças, muita responsabilidade, e felicidade também.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.