Kraftwerk no palco Foto: Reprodução

Kraftwerk perde disputa judicial das mais longas da história da música

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Tribunal da União Europeia decidiu a favor do produtor Moses Pelham, que usou sample de Metall auf Metall em rap de Sabrina Setlur

Uma das batalhas judiciais mais longas da história da música terminou desfavorável ao Kraftwerk. O seminal quarteto de música eletrônica perdeu o processo contra o produtor alemão Moses Pelham pelo uso do sample de Metall auf Metall (1977) na canção Nur mir, da rapper — também alemã — Sabrina Setlur (1997).

O Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) decidiu a favor de Moses, concluindo que a utilização de um loop de bateria de dois segundos é legal dentro do conceito de “pastiche”, e que as obras eram “notavelmente diferentes”. A disputa havia começado em 1999 e passado por inúmeras instâncias europeias.

Segundo o Resident Advisor, o veredito deve ter impacto nas práticas de sampling ao redor da Europa, flexibilizando o uso da prática sem autorização prévia do criador da faixa original. Até então, se o sample era “irreconhecível”, podia ser usado sem pedido de autorização para o criador. No entanto, se o tempo de gravação usado fosse suficiente para remeter à canção original, era preciso pagar direitos autorais a quem fez primeiro.

“Chama os adevogado!”

Mas esta não foi a única briga na justiça empenhada (e perdida) pelo grupo germânico. Em 1984, o estadunidense Tom Silverman, dono de uma então pequena gravadora chamada Tommy Boy Records, viu chegar, do outro lado do mundo, uma intimidação para responder a um processo judicial vindo da Alemanha.

O selo havia acabado de lançar o single Planet Rock, de Afrika Bambaataa, no qual as melodias da canção Trans Europe Express e as batidas de Numbers — duas músicas do Kraftwerk — se misturavam para fazer a base de um rap que soava muito mais como uma homenagem à invenção alemã do que um plágio.

Os anos 80 foram a década que testemunhou a popularização planetária do rap estadunidense. Curiosamente, os integrantes de um grupo que influenciou enormemente o movimento hip-hop a um oceano de distância parecia não suportar muito seus artistas e métodos de produção.

Mas o que é que tá pegando, Kraftwerk?

Muita gente, incluindo fãs do Kraftwerk, caiu de pau quando as notícias dos processos vieram à tona. Como pode uma banda tão relacionada à tecnologia se virar contra as inovações do hip-hop? Dois de seus integrantes, Florian Schneider e Ralf Hütter, eram cheios da grana, filhos de importantes arquitetos e industriais alemães. Uma realidade totalmente diferente dos garotos a quem estavam processando. Que ódio era aquele?

Na verdade, o problema passa pela engenharia de som. Desde o início do projeto, os quatro integrantes se trancavam em um estúdio (que não tinha campainha nem telefone) e criavam, ou modificavam, instrumentos eletrônicos para sintetizar sons a partir do nada. Cada pedacinho de música levava horas, dias, fios de cobre e ferros de solda para ficar pronto. Por isso o apego tamanho dos caras com suas criações.

Já no lado oposto da batalha judicial, a realidade era bem diferente. Para dar “espaço” aos primeiros rappers cantarem suas rimas, DJs usavam dois discos iguais de funk e ficavam repetindo um compasso de batida, utilizando dois toca-discos, pelo tempo suficiente para que a poesia fosse transmitida. Quando essa galera teve acesso aos estúdios de Nova Iorque, o movimento foi natural. Bastava “recortar” aquele pedaço de ritmo e multiplicá-lo, montando a base dos primeiros singles de rap.

E o curioso era que todos eram loucos por Kraftwerk, graças à aura robótica e futurista que davam aos seus instrumentos eletrônicos. Tanto que uma das cenas mais lembradas de um dos primeiros e mais icônicos filmes sobre o breakdance, o clássico Breakin’, apresentava o protagonista dançando em uma calçada ao som de Tour de France. Não foi suficiente para aplacar seus coraçõezinhos gelados. Dá-lhe processo a quem quis usar seu som na nova onda dos Estados Unidos.

Dois finais diferentes

Se o Kraftwerk acaba de perder a batalha judicial contra Moses Pelham, a treta com a Tommy Boy teve um desfecho diferente e curioso. Após brigas na justiça, os dois entraram em um acordo. Para cada single de Planet Rock vendido, Silverman daria um dólar aos reclamantes. Não perdeu nada com isso: simplesmente aumentou o valor do disco de vinil, incluindo aí a comissão para os alemães. E como o single virou um gigantesco sucesso mundial, foi um excelente negócio para Florian Schneider e Half Hütter.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.