Bruce Springsteen Foto: Reprodução

Pela causa trans, Bruce Springsteen cancelava show há 10 anos

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Astro americano desmarcou na véspera sua apresentação em Greensboro, na Carolina do Norte, em protesto contra a “Lei do Banheiro”

“Sinto que este é um momento para mim e para a banda mostrarmos solidariedade a esses lutadores pela liberdade. Como resultado, e com as mais profundas desculpas aos nossos dedicados fãs em Greensboro, cancelamos nosso show programado para domingo, 10 de abril. Algumas coisas são mais importantes do que um show de rock, e essa luta contra o preconceito e a intolerância […] é uma delas.” Foi assim que o astro estadunidense Bruce Springsteen, em comunicado oficial, avisou que há exatos dez anos, dia 09 de abril de 2016, que não subiria ao palco de Greensboro, na Carolina do Norte.

O cancelamento era um protesto ao que foi chamado pelo povo do país como “Lei do Banheiro”, que obrigava pessoas trans a usar os banheiros públicos segundo o gênero de nascimento, além de cercear outros direitos da comunidade LGBT+. O projeto havia sido aprovado no estado em 23 de março do mesmo ano.

O posicionamento não causou polêmica entre seus fãs. Todo mundo sabia que Springsteen era um grande apoiador de causas como essa. Mas a decisão do cancelamento dividiu imprensa e público em seu país. Cancelar um show na véspera era mesmo uma forma de protesto válida? Não seria melhor manter a apresentação, subir no palco e descer a lenha em quem aprovou ou apoiava essa lei?

Foi o que fez, por exemplo, a banda Against Me!, liderada pela vocalista trans Laura Jane Grace: manteve o seu show e tocou fogo no parquinho. Para Bruce Springsteen, o caminho a tomar era mesmo o do boicote. Nada de show, como também fizeram seus colegas Bryan Adams e Ringo Starr.

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Que lei foi essa?

O Public Facilities Privacy and Security Act foi aprovado na Carolina do Norte através de processo extremamente rápido para os padrões do estado, controlado pelos republicanos. A proposta surgiu como um contragolpe a uma lei municipal sancionada pela cidade de Charlotte, que ampliava as proteções contra discriminação para pessoas LGBTQIA+. Essa ordenança municipal permitia que pessoas transgênero usassem os banheiros públicos de acordo com sua identidade de gênero. Em uma rápida sessão especial que custou 42 mil dólares, a Lei do Banheiro foi aprovada e sancionada em apenas 12 horas.

O pau quebrou feio, e até mesmo grandes empresas, como Apple, Microsoft e PayPal se manifestaram contra. O PayPal, inclusive, cancelou a expansão de um centro de operações no estado, o que geraria cerca de 400 empregos. A NCAA (National Collegiate Athletic Association), que organiza a maioria dos programas de esporte universitário dos Estados Unidos, retirou sete campeonatos da Carolina do Norte, incluindo jogos do torneio de basquete masculino, e a NBA transferiu o jogo das estrelas (All-Star Game) de 2017 que ocorreria em Charlotte. Uma estimativa indicou que o decreto pode ter causado uma perda de mais de 500 milhões de dólares para a economia local.

A lei foi modificada um ano depois, graças à campanha a qual Bruce Springsteen encabeçou, mas não agradou à comunidade LBGT+. O estado chamou-a de “revogação”, e os ativistas de “farsa”, argumentando que a discrimação seguia institucionalizada na região. Mas uma lição foi aprendida: a pressão popular e o posicionamento artístico fazem, sim, muita diferença.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.