América Latina Tim Maia. Imagem: Reprodução

4 artistas brasileiros que não vingaram no resto da América Latina

Leonardo Vinhas
Por Leonardo Vinhas

Edição: Flávio Lerner


De Tim Maia a Jota Quest, eles bem que tentaram, mas não colaram nos países vizinhos

A barreira que o Brasil levantava para a música dos seus vizinhos da América Latina começou a se dissolver nos últimos anos, felizmente. Nomes como Rosalía, CA7RIEL & Paco Amoroso, Milo J e especialmente Bad Bunny ampliaram as brechas que foram sendo cavadas em diversas iniciativas que começaram nos anos 1990 e se estenderam pelo século 21. Pode ser que ainda não nos vejamos como os latinos que somos, mas pelo menos os ouvidos já estão mais abertos para o que chega dos outros países do continente.

Não foi sempre assim: nos anos 1950 e até em parte dos 1960, o bolero e outros ritmos cubanos tocavam nas rádios de todo o país, o tango e (principalmente) a milonga eram fortes no Rio Grande do Sul, e nem vamos falar da região Norte, onde a cumbia e outros gêneros caribenhos chegaram com força. Mas políticas culturais filhas da Guerra Fria vieram com tudo para cá, especialmente após o golpe militar em 1964, e elas contribuíram fortemente para criar um preconceito contra toda arte que fosse falada ou escrita no idioma espanhol, que durou por décadas.

Por anos, não foi fácil para artistas de países vizinhos criarem público por aqui, enquanto o contrário já não era verdade: os hermanos eram mais permeáveis à nossa música, inclusive em sua variedade. Já falamos do caso do Paralamas e até do Cid Guerreiro, mas Roberto Carlos e Xuxa foram verdadeiros megastars na Argentina; o mesmo Roberto e Jorge Ben Jor são sinônimos de música brasileira no México até hoje; e Robertão ainda fez sucesso em outros países. 

Tem mais: Titãs e Legião Urbana influenciaram diversas bandas uruguaias e argentinas dos anos 1990 e 2000; o Skank teve um breve período de notoriedade no Chile; e nomes tão diferentes quanto Maria Bethânia, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Ed Motta, Autoramas, Paulinho Moska e Sepultura fizeram carreiras longevas, mesmo que bem mais nichadas, em uma ou mais nações da América Latina. Caramba, até os indies da antiga Superguidis tiveram status de banda cult na Argentina por alguns anos!

Mas teve quem tentou fazer essa ponte e deu com os burros n’água. Gente que teve investimento de gravadora, plano de marketing, apoio de players locais, e ainda assim, deu em nada — fosse por circunstâncias adversas, timing errado, ou só porque o som não era lá essas coisas mesmo. Apresentamos a seguir alguns dos casos mais emblemáticos dessas tentativas:

Secos & Molhados

Em 1973, os Secos & Molhados eram a maior banda do Brasil. Vendiam tantos LPs que sua gravadora, a Continental, colocou duas das três prensas de vinil que tinha à sua disposição para produzir exclusivamente discos do grupo. 

Um fenômeno desses tinha que ser exportado, pensaram a gravadora e seu então empresário, Moracy do Val. Assim, bancaram um período de 20 dias no México, no final de maio de 1974. Foram feitas duas apresentações em TV (na qual, estima-se, chegaram a 30 milhões de espectadores), divulgando um disco em espanhol (Secos y Mojados); houve rodadas de negócios (uma delas, com promotores dos Estados Unidos, deu origem à lenda de que o Kiss os teriam copiado, uma teoria que não encontra respaldo nos fatos); começaram a preparar material inédito no idioma local; e até tiveram aquele “empurrãozinho” amigo das gravadoras para tocarem loucamente nas rádios.

Estouraram, portanto? Não. O grupo voltou ao Brasil para gravar o segundo disco, e o clima, que já estava azedo, piorou muito. A mão de ferro de João Ricardo (um dos vértices do trio), que demitiu Moracy do Val sem o consentimento dos outros dois, além de sua egomania, somaram-se ao desgaste físico e emocional causado por uma agenda de shows sobre-humana.

Quando João registrou o nome do grupo para si e propôs transformar Ney Matogrosso e Gerson Conrad em empregados contratados, e ainda deixar a gestão dos negócios da banda nas mãos de seu pai, João Apolinário, os outros dois vértices decidiram que tinham chegado ao limite e não havia como continuar. Ou seja: o Secos & Molhados acabou sem divulgar o segundo disco no Brasil, muito menos no México ou em qualquer outro lugar.

João Ricardo, que nega essa história (apesar de todos os demais envolvidos confirmarem), reformulou a banda um tempo depois e lançou outros discos, pelos quais pouca gente se interessou. Conrad lançou um bom LP com Zezé Motta e depois trocou a música pela arquitetura. E Ney Matogrosso… Bem, a gente nem precisa contar, né?

Tim Maia

Esse é um caso triste, porque vai deixar o eterno “e se?” na cabeça dos fãs. Quando Tim Maia gravou seu primeiro disco em 1970, preparou versões em espanhol para praticamente todas as faixas. Só que elas nunca foram lançadas enquanto o maior soulman da América Latina estava vivo.

Foi só em 2021 que esse material veio à tona, fruto de uma quase obsessão de Carmelo Maia, um dos filhos do homem, com o título Yo te Amo e uma digna restauração de áudio das fitas originais. São nove canções (clássicos como Cristina, Azul da Cor do Mar, Padre Cícero Primavera), com arranjos idênticos aos originais em português, mas com el síndico exercitando o gogó em castelhano. 

Se é bom? Claro que sim. Teria feito sucesso? Difícil saber. O Brasil foi o único país latino-americano a ter uma cena soul mais consolidada na década de 1970. Podia passar batido como podia ter sido um terremoto, já que não havia nada parecido nas terras vizinhas. Mas nunca saberemos. Só podemos ouvir essas versiones — o que já tá bom demais.

Jota Quest

O que os Paralamas do Sucesso conseguiram no mercado latino não foi pouco, e claro que isso deve ter feito muito músico brasileiro pensar: “será que não daria certo pra mim também?”.

Foi o caso do Jota Quest, que teve investimento pesado da gravadora para isso. A Sony bancou uma coletânea em espanhol, Días Mejores, lançada apenas na Argentina em 2010. Era para testar a receptividade e, dependendo da aceitação, expandir para outros países.

Spoiler: não colou. O single de lançamento — uma versão de Na Moral com a participação dos notórios funk-rockers Illya Kuryaki & The Valderramas — até teve uma rotaçãozinha na MTV Latina, mas o disco não conseguiu muito mais que isso. O lado bom disso é pensar que nuestros hermanos foram privados da sua versão de Dias Melhores, uma breguice que dá gastura em qualquer idioma.

Cidade Negra

Em 2010, a banda de pop-reggae argentina Los Pericos lançou Pericos & Friends. Como entrega o nome, é um álbum só de feats, e boa-praças e bem-sucedidos que são, juntaram um time de respeito: tem Ali Campbell (do UB40), Mykal Rose (Black Uhuru), os Wailers, Gregory Isaacs, Skatalites… e dois brasileiros na parada: Herbert Vianna e o Cidade Negra.

Herbert já era praticamente um nome de casa por lá, mas o grupo carioca era pouco conhecido. A banda queria se internacionalizar, já havia feito excursões pela Europa, mas tocava mais para brasileiros expatriados que para gringos. Lançar música junto a um grande artista local poderia ser a porta de entrada para essa carreira.

A gravação em si foi uma versão para Mulher de Fases, transformada em reggae-sofrência, e rebatizada como Complicado y Aturdido. Ficou péssima, mas ainda assim foi um hit. Só que não capitalizou a favor do quarteto, que seguiu sem emplacar seu nome no exterior.

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Leonardo Vinhas

Leonardo Vinhas é jornalista, escritor e produtor cultural na ativa há mais de 20 anos. Escreve para o Scream&Yell desde 2000, já produziu 19 discos para o selo S&Y, e foi corresponsável pelo Festival Conexão Latina.