Nouvella - Bandas de Florianópolis Nouvella. Foto: Dan Pellicciari/Divulgação

Ruído da Ilha: 3 bandas da cena independente de Floripa para conhecer

Alexandre Bezzi
Por Alexandre Bezzi

Edição: Flávio Lerner


Dirty Grills, Tapete Tapete e Nouvella mostram que a Ilha da Magia também sabe exportar belos grupos para o restante do Brasil

Florianópolis costuma ser apresentada ao Brasil como uma combinação de praia, surf, gastronomia e qualidade de vida. Mas a cidade também produz música, e bastante. Por trás da imagem turística existe uma cena independente que movimenta coletivos, lota espaços pequenos e coloca o pé na estrada.

Aqui, vou falar de três grupos diferentes entre si, mas que mostram que a produção autoral de Floripa não está confinada à ilha. Uma banda já passou pelo Lollapalooza Brasil e dividiu palcos com nomes como Letrux. As outras duas vêm ampliando seus circuitos com turnês por outras cidades e estados.

Dirty Grills: peso, sarcasmo e nenhum baixo — ou quase isso

Dirty Grills - Bandas de Florianópolis

Foto: Dani Simões/Divulgação

Duas mulheres, guitarra, bateria e uma quantidade considerável de distorção. A Dirty Grills poderia simplesmente apostar no peso, mas encontrou no humor e no sarcasmo uma forma de retratar o cotidiano.

“A gente usa isso pra retratar situações que presencia no nosso dia a dia e dar aquela chamada de atenção pra esses temas que são importantes”, explicam ao Music Non Stop.

E existe uma curiosidade sonora: “a banda não tem baixo, mas tem!”, brincam. A guitarra passa por um pedal oitavador e é enviada para um amplificador de baixo, permitindo que uma pessoa — Jéssica Gonçalves — cumpra as duas funções e sustente a bateria de Mariel Maciel.

O resultado é uma formação enxuta e volumosa, impulsionada por uma sintonia que a dupla define de forma simples: “É uma sintonia que nem a gente consegue explicar”.

Além do som encorpado, a Dirty Grills carrega a responsabilidade de ocupar um espaço ainda pequeno para formações femininas em Santa Catarina. “A gente tá sempre lutando por espaço”, afirmam, entendendo que essa disputa significa ser cordial sem deixar de se posicionar, exigir respeito e defender a própria arte.

Tapete Tapete: se ninguém reclama, vira música

Tapete Tapete - Bandas de Florianópolis

Foto: Divulgação

A Tapete Tapete prefere não explicar demais o próprio nome. “Em um mundo onde tudo é respondido toda hora, a dúvida incomoda”, comentam.

Essa lógica se reflete na música: as referências dos integrantes são variadas e o processo criativo baseia-se na descoberta.

“Nós não chegamos no ensaio pra executar uma ideia pronta. A gente costuma chegar pra descobrir se tem alguma ideia”, explicam. As faixas são testadas em grupo e consolidadas sem mistério: “Se ninguém reclama, vira música”.

Nesse método, a farra é a regra da casa. “Nossa diversão não é um detalhe no processo, é um critério”, destacam.

Porém, por trás da brincadeira, existe a realidade financeira do mercado independente. Como o circuito de Florianópolis é limitado para quem busca expansão, sair da cidade virou necessidade. O grupo já passou por palcos catarinenses, Curitiba e São Paulo, onde tocou na Casa Rockambole ao lado de Polara, Quebec e Centroleste Autopeças.

Planejam novos lançamentos para o início do próximo ano. Fiquem atentos!

Nouvella: de Florianópolis para o Lollapalooza

Nouvella - Bandas de Florianópolis

Foto: Dan Pellicciari/Divulgação

A Nouvella é o exemplo mais evidente de como uma banda formada na cena autoral local pode ganhar projeção nacional. Antes de estruturarem o grupo, seus integrantes já circulavam pelas mesmas jams e palcos da cidade. A conexão orgânica acabou incorporando vivências do surf, skate e arte urbana, resultando em uma sonoridade que transita entre referências vintage (blues, rock clássico) e uma abordagem contemporânea.

No processo de composição não há receita fixa: “Tem músicas que vêm facinho e outras que são um parto!”, contam.

Mesmo após o lançamento, o trabalho permanece vivo, já que as faixas se transformam nos shows. O foco principal continua sendo a energia ao vivo.

“O que a gente mais gosta é de estar no palco”, garantem.

Essa busca por uma experiência coletiva levou a Nouvella ao Lollapalooza e a aberturas para artistas como Letrux, consolidando sua trajetória nacional sem perder o vínculo com a origem.

O barulho continua além do mar

Dirty Grills, Tapete Tapete e Nouvella representam caminhos bastante diferentes dentro da mesma cidade. Uma aposta no peso e no sarcasmo; outra transforma a experimentação e a diversão em método; a terceira já levou o som de Florianópolis aos maiores festivais do país. O ponto de convergência é a necessidade de circular.

Florianópolis tem bandas, público, coletivos e shows, mas também enfrenta limitações de mercado. Para quem pretende crescer, chega o momento em que é preciso atravessar a ponte. É o que essas três estão fazendo, cada uma à sua maneira, mostrando que a cena independente da Ilha da Magia continua gerando artistas pouco interessados em ficar restritos ao próprio território.

E se vier à cidade e estiver à procura de shows, recomendo as casas Célula, Desgosto e Bro Cave.

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Alexandre Bezzi

Com mais de duas décadas de vivência no meio jornalístico e musical, Alexandre Bezzi virou uma entidade da cena alternativa, com direito a homenagem da banda CSS com a faixa que leva seu nome.